“Ao cuidar de você no momento final da vida,
quero que você sinta que me importo pelo fato
de você ser você, que me importo até o último
momento de sua vida e faremos tudo que
estiver ao nosso alcance, não somente para
ajudá-lo a morrer em paz, mas também para
você viver até o dia de sua morte.”
Cicely Saunders

A filosofia paliativista teve início na antiguidade com algumas definições sobre o Cuidar. Na Idade Média, durante as Cruzadas, eram comuns os Hospices (Hospedarias, em português) em monastérios, que abrigavam não somente os doentes e moribundos, mas também os famintos, mulheres em trabalho de parto, pobres, órfãos e leprosos. Esta forma de hospitalidade tinha como característica o acolhimento, a proteção, o alívio do sofrimento, mais do que a busca pela cura.

Nesse panorama histórico, o movimento hospice moderno teve início com Cicely Saunders, uma inglesa que nasceu em 1918 e dedicou sua vida ao alívio do sofrimento humano. Em 1947, formada recentemente como Assistente Social e em formação como Enfermeira, conheceu um paciente judeu de 40 anos chamado David Tasma, proveniente da Polônia. David tinha um câncer de reto não operável e Cicely cuidou dele até sua morte. Ele deixou uma pequena herança dizendo pra ela: “Eu serei uma janela na sua casa”. E, segundo Cicely, este foi o ponto de partida para o seu compromisso com uma nova forma de cuidar. Ela também se graduou em medicina e, em 1967, fundou o St. Christopher´s Hospice, o primeiro serviço a oferecer cuidado integral ao paciente. Logo a sua entrada podemos ver a janela de David Tasma. Até hoje, o St. Christopher´s é reconhecido como um dos principais serviços no mundo em Cuidados Paliativos e Medicina Paliativa. Cicely faleceu em 2005, em paz, sem dor e sem sofrimento, sendo cuidada no St. Christopher´s, como sempre cuidou de seus pacientes e ensinou à comunidade médica.

O movimento paliativista tem crescido enormemente, neste início de século. No Brasil, iniciativas isoladas e discussões a esse respeito são encontradas desde os anos 70. Contudo, foi nos anos 90 que começaram a aparecer os primeiros serviços organizados, ainda de forma experimental. Vale ressaltar o pioneirismo do Prof. Marco Túlio de Assis Figueiredo, que abriu os primeiros cursos e atendimentos com filosofia paliativista na Escola Paulista de Medicina – UNIFESP/EPM. Logo surgiram outros serviços pioneiros.

Cuidados Paliativos no Brasil

No Brasil, ainda existe um enorme desconhecimento e muito preconceito relacionado aos Cuidados Paliativos, principalmente em relação ao uso de opióides, como a morfina, para o alívio da dor e também pelo mito de que não há mais nada que possa ser feito para o paciente. Pelo contrário, há muito a ser feito e a equipe de Cuidados Paliativos pode ajudar esse paciente no controle dos sintomas físicos e psíquicos, no âmbito social e também espiritual, promovendo qualidade de vida e, como dizia Cicely Saunders, “dando vida aos seus dias”. A família também é cuidada e acolhida com muito carinho e respeito.

A palavra paliativo é derivada do latim ‘pallium’ que significa manto. Na época das Cruzadas, os cavaleiros utilizavam esse manto para protegê-los das intempéries do caminho durante a longa jornada. Então, de uma maneira simples, Cuidado paliativo é Cuidado de Proteção. Segundo a Organização Mundial da Saúde, os Cuidados Paliativos são uma abordagem terapêutica que melhora a qualidade de vida dos pacientes e suas famílias que enfrentam problemas associados com doenças crônicas que ameaçam a vida, através da prevenção e alívio do sofrimento por meio da identificação precoce e avaliação impecável e tratamento da dor e outros problemas físicos, psicossociais e espirituais.

O médico paliativista cuida do paciente, e de seus familiares, desde o diagnostico de uma doença crônica que ameaça a vida até a morte e acolhe a família no luto. Portanto, a idéia de que não há mais nada para fazer pelo paciente quando é encaminhado para avaliação da Equipe de Cuidados Paliativos, não é verdadeira. Há muito a ser feito, como o controle dos sintomas fisicos, psíquicos, sociais e espirituais através de medidas medicamentosas e não medicamentosas, em conjunto com uma equipe multiprofissional de médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, nutrícionistas, fonoaudiólogos, psicólogos, assistentes sociais, dentistas, terapeutas ocupacionais e assistente espiritual (capelão).

A conscientização da população brasileira sobre os Cuidados Paliativos é essencial para que o sistema de saúde brasileiro mude sua abordagem aos pacientes portadores de doenças que ameaçam a continuidade de suas vidas. Cuidados Paliativos são uma necessidade de saúde pública. São uma necessidade humanitária, pois, como dizia Saunders: “O sofrimento humano só é intolerável quando ninguém cuida”

Andreia Cristina de Paula, Cuidados Paliativos – CRM 108378